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Manter a saúde da boca em dia pode ir muito além de evitar cáries e mau hálito. Estudos recentes mostram que ela também pode ter um papel importante na proteção do cérebro contra o AVC
O Acidente Vascular Cerebral, conhecido como AVC, está entre as principais causas de morte e incapacidade no mundo. Estima-se que cerca de 12 milhões de pessoas sofram um AVC todos os anos, resultando em aproximadamente 6,5 milhões de mortes em escala global. Esses números mostram a gravidade do problema e a importância da prevenção.2
Tradicionalmente, a prevenção do AVC se concentra no controle da pressão arterial, do diabetes, do colesterol e do tabagismo. No entanto, revisões científicas recentes apontam que a saúde bucal pode ter um papel relevante nesse cenário. Segundo dados publicados no Journal of Clinical Medicine, doenças da boca vêm sendo estudadas como possíveis fatores adicionais de risco para o AVC.2
O AVC acontece quando o fluxo de sangue para o cérebro é interrompido. Ele pode ser classificado em dois tipos principais. O AVC isquêmico ocorre quando um vaso sanguíneo é bloqueado, enquanto o AVC hemorrágico acontece quando há sangramento dentro do cérebro. O tipo isquêmico é o mais comum e representa cerca de 85% dos casos.2

Entre os fatores de risco mais conhecidos para o AVC estão a hipertensão arterial, o diabetes, o colesterol elevado, o tabagismo, a obesidade e o sedentarismo. Esses fatores afetam diretamente a saúde dos vasos sanguíneos e aumentam a chance de eventos cerebrais graves.2
Além desses fatores tradicionais, a literatura científica vem destacando que condições inflamatórias crônicas, como as doenças periodontais, também podem influenciar o risco de AVC. Essas inflamações persistentes podem afetar os vasos do cérebro ao longo do tempo.2
A saúde bucal não se resume apenas à ausência de cáries. Ela envolve gengivas saudáveis, dentes firmes e ausência de dor ou desconforto na boca. Quando esses cuidados falham, surgem doenças que podem afetar não só a boca, mas todo o organismo.2

A gengivite é uma inflamação inicial das gengivas, geralmente causada pelo acúmulo de placa bacteriana. Quando não tratada, ela pode evoluir para a periodontite, uma vertente mais grave da doença, que destrói os tecidos que sustentam os dentes e pode levar à perda dentária.2
Essas doenças ativam uma resposta inflamatória no corpo, com liberação de substâncias como IL‑1β, IL‑6 e TNF‑α. Essas substâncias entram na corrente sanguínea e mantêm um estado de inflamação contínua, que não fica restrito à boca.2
De acordo com revisões científicas, essa inflamação crônica pode contribuir para doenças cardiovasculares, respiratórias e neurológicas, incluindo o AVC. Por isso, a saúde bucal passou a ser vista como parte da saúde geral.2
Uma grande metanálise publicada na revista Frontiers in Neurology mostrou que pessoas com periodontite apresentam mais que o dobro de chance de sofrer um AVC. A associação foi ainda mais forte quando analisado apenas o AVC isquêmico, o tipo mais comum.1
Ao analisar estudos de grupos com acompanhamento prolongado, os pesquisadores observaram que a periodontite esteve associada a um aumento médio de 49% no risco de AVC. Nos estudos com mais de 10 anos de acompanhamento, esse aumento chegou a 57%, reforçando o impacto da inflamação bucal ao longo do tempo.1
A análise também mostrou que quanto mais grave a doença periodontal, maior o risco observado. Estudos prospectivos apresentaram resultados mais consistentes do que estudos retrospectivos, indicando uma relação progressiva entre inflamação gengival e AVC.1
Estudo INTERSTROKE, realizado em 32 países com mais de 26 mil participantes, encontrou associação entre perda dentária e AVC. Quando dor nos dentes, dor nas gengivas e perda dentária estavam presentes juntas, o risco de AVC foi ainda maior.3
A inflamação causada por doenças periodontais permite que bactérias e seus produtos entrem na corrente sanguínea. Esse processo estimula a liberação de mediadores inflamatórios que circulam por todo o corpo.2

Essas substâncias inflamatórias podem prejudicar a função dos vasos sanguíneos, favorecer a formação de placas de gordura e estimular a agregação das plaquetas. Esses mecanismos aumentam o risco de obstruções nos vasos que irrigam o cérebro.1
Pesquisas também mostram que bactérias como Porphyromonas gingivalis podem ativar diretamente a coagulação do sangue, criando um elo entre a inflamação bucal e eventos ateroscleróticos.1
Além disso, estudos recentes descrevem o eixo boca-intestino-cérebro, no qual bactérias orais alteram a microbiota intestinal e a resposta imune. Esse processo pode comprometer a barreira hematoencefálica, facilitando danos ao sistema nervoso central e aumentando a vulnerabilidade ao AVC.12
Além da periodontite, outras condições bucais têm sido apontadas como possíveis marcadores de risco cardiovascular e cerebral. Essas doenças indicam um estado inflamatório persistente no organismo.2
Diferente da idade ou da genética, a saúde bucal é um fator que pode ser controlado. Isso faz dela um ponto estratégico na prevenção do AVC.1
Estudos observacionais mostram que pessoas que realizam cuidados odontológicos regulares apresentam uma redução de 23% no risco de AVC isquêmico quando comparadas àquelas que procuram o dentista apenas esporadicamente.3
Pesquisas de intervenção indicam que o tratamento da periodontite melhora a função dos vasos sanguíneos. Esses achados sugerem que tratar a inflamação gengival pode trazer benefícios vasculares importantes.1
O ensaio clínico mostrou que a terapia periodontal intensiva em pacientes que já sofreram AVC foi segura e apresentou tendência à redução de novos eventos vasculares ao longo de 12 meses.3
As evidências científicas não deixam dúvidas de que a boca faz parte da saúde do corpo como um todo. Doenças periodontais não devem ser vistas apenas como um problema local, pois elas podem influenciar diretamente o risco de AVC.2
Promover a higiene oral adequada e o acesso regular ao dentista pode ser uma estratégia eficaz de prevenção em saúde pública. Cuidar da boca é também uma forma de cuidar do cérebro.2
1‑ Frontiers in Neurology (Frontiers). Periodontitis and risk of stroke: a systematic review and meta‑analysis of observational studies. 2025. Link: https://www.frontiersin.org/journals/neurology/articles/10.3389/fneur.2025.1700946/full. Acesso em Dez. 2025.
2‑ Journal of Clinical Medicine (MDPI). The Link between Stroke Risk and Orodental Status—A Comprehensive Review. 2022. Link: https://www.mdpi.com/2077-0383/11/19/5854. Acesso em Dez. 2025.
3‑ Journal of Stroke & Cerebrovascular Diseases (Elsevier). Markers of periodontal disease and risk of stroke: INTERSTROKE case‑control study. 2024. Link: https://www.strokejournal.org/article/S1052-3057%2824%2900248-9/fulltext. Acesso em Dez. 2025.
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